Enviada por Nogueira em 01/03/2010
Chamada para o fim do mundo
Todo mundo diz que a tecnologia deve ser – e é – usada a favor do homem. Na teoria isso funciona muito bem, mas será que, na vida real, é isso que acontece?
Eu particularmente penso que não.
As novas invenções são cada vez mais perturbadoras, principalmente a respeito dos telefones celulares. Hoje, essas pequenas máquinas fazem de tudo: captam a frequência de rádio, de televisão – inclusive a digital – além de servirem de gravador de voz, de GPS, de agenda telefônica, de calendário, de despertador, de cronômetro, de câmera fotográfica, de filmadora e, entre tantas e outras funções que existem (e para o meu desespero), também tocam músicas baixadas segundo as preferências e o gosto de cada dono.
Antes que qualquer pessoa pense que eu sou alguma conservadora anticelular, eu esclareço. Não. Absolutamente não. Tanto que tenho não apenas um, mas dois aparelhos que carrego diariamente e que utilizo da forma mais racional possível. Só que junto com eles eu me sirvo também de generosas doses de bom senso. Sabe aquela história de que a liberdade de um termina onde a do outro começa? É esse o ponto.
Nada contra a felicidade e a musicalidade de ninguém, mas o tal “desconfiômetro” anda em falta no mercado. As pessoas simplesmente não compreendem que o fato de terem celulares com funções musicais não é sinônimo de que todos são obrigados a compartilhar do seu playlist particular nem pedir em coro que o tal “amor, por favor, não desligue o telefone”. Constatações como “eu sou sua mulher e você é o meu homem”, embaladas ao som estridente de um ritmo batizado de calipso que se assemelha muito ao de um teclado mal ajustado – acreditem – irritam e incomodam profundamente.
É claro que eu respeito todo e qualquer tipo de cultura, mas gostaria de ter a minha cultura respeitada da mesma forma. Não pretendo aqui defender um determinado grupo de categorias musicais, até porque não sou crítica do assunto, mas sim defender os meus ouvidos dessas metralhadoras portáteis que as pessoas insistem em apontar para qualquer um a qualquer hora.
Celular virou mania, mas não pelo seu papel original. A febre é decorrente das funções extras que essas verdadeiras “máquinas do mal” oferecem e que interferem em outras esferas de consumo do mercado. E esse aumento na aquisição está em proporção inversa ao valor atribuído ao produto, o que incha o comércio e estimula o consumismo exagerado de que somos testemunhas hoje. É muito fácil comprar um telefone celular. As pessoas o fazem só pelo prazer de gastar, ou para competir com alguém, ou ainda pelo desejo incontrolável de ter mais um carnê para pagar no final do mês.
É interessante como, por mais humilde que seja a família, é cada vez mais comum o uso do celular. Os adolescentes dormem ao som deles e tiram milhares de fotografias que jamais serão reveladas. Os homens assistem aos jogos de futebol na sua telinha com algumas poucas polegadas. A dona de casa ouve a história triste de uma outra senhora contada no programa de rádio, enquanto as crianças colocam esse objeto no centro das suas maiores aspirações. Observemos a proporção que isso tomou. É uma realidade que não pode ser tratada como normal, principalmente porque a exposição à radiação emitida pelo celular acarreta males significativos à saúde, por mais que as pessoas ignorem essa informação.
Outro ponto negativo do celular é que os seus recursos simplesmente deixam as pessoas preguiçosas. Ninguém mais aprende o telefone do pai, da mãe, do filho... porque todas essas informações estão sempre na agenda do telefone que, caso seja roubado, perdido ou danificado, inspira um estado de loucura e desespero no seu dono que seria motivo para internação em uma clínica psiquiátrica.
Além de tudo isso, o consumo exagerado e a troca recorrente de aparelhos originam, em cada residência, um mini ferro-velho eletrônico. Hoje em dia é normal ter vários aparelhos estocados, enfiados em gavetas, armários e estantes pela casa. E isso quando não são simplesmente jogados no lixo comum, sem nenhuma consideração ou reflexão sobre o fato de ser resíduo tecnológico, que contamina o meio ambiente, que é inflamável, etc. Isso não é legal, não tem ritmo – portanto – não importa aos “papa-celulares musicalizados”.
Penso que uma boa solução para amenizar o problema seria aumentar a carga tributária sobre o produto. Celular mais caro é mais difícil de comprar. Quanto ao incômodo da execução das músicas armazenadas no aparelho, talvez o governo atual, que adora lançar “bolsas” (família, escola, etc), devesse inventar também a “bolsa-fone-de-ouvido”. Isso seria um bem enorme para a humanidade e – quiçá – poderia até diminuir os números da violência no que se refere à agressão física em ambientes como o de trabalho e ônibus, por exemplo.
Mas, como ninguém pode viver num mundo de hipóteses e “praga boa” é aquela impossível de ser extirpada, temo que o uso desse recurso deva perdurar ainda por muito tempo, e por isso, daqui para frente, as coisas tendem a piorar. Mais lixo, mais aquecimento global, mais tudo.
Justamente por isso, creio que o celular é uma das ferramentas do apocalipse. O mundo deve mesmo estar perto de seu fim e nós temos assistido a tudo de camarote. As imagens são fantásticas, infinitas, transmitidas via satélite, e a trilha sonora... ah, essa você também já conhece. Já deve tê-la ouvido por aí, vinda de algum telefone celular.
Por Daiane Andrade
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